Zoom dinâmico

Este Retrato de Deborah Netto, datado de Petrópolis - 1998, foi feito por ocasião de um grupo de estudos sobre o pintor Titian. É um quadro bastante estudado e construído, que considero ter tido muita sorte em realizar, encontrando, no período de uns quatro meses de trabalho, diversas alegrias plásticas. O trabalho de referência, escolhido como hipótese de trabalho, foi Madelena Arrependida.
Utilizei um fundo Terra-de-Siena, tradicional na obra geral de Titian, que impõe um movimento de pintar da escuridão para a luz. A figura foi pintada, nas áreas de sombra da pele e cabelo, com laranja e preto (detalhe da cabeça). O laranja foi ajustado de tal modo que ao ser misturado com o preto fosse obtido o mesmo tom e cor do Terra-de-Siena do fundo. Lançada a figura com estas tintas, foi acrescentado uma mescla de amarelo e branco, aplicada sobre o mesmo laranja, para se obter as luzes quentes do rosto, colo e braços.

Titian foi um dor primeiros pintores a utilizar este procedimento simples, que parte de um fundo escuro e desdobra as cores que o compõe. Um bom exemplo é um pequeno modulo pintado para compor parte do Teto da Escola de São João Evangelista, onde o Titian se limita ao processo inicial indicado, sem maiores variações cromáticas. Entretanto, encontramos posteriormente, uma infinidade de pintores que utilizaram este mesmo procedimento, desdobrando-o de diversas maneiras. El Greco, Velasquez, Van Gogh, Degas, Picasso, Klint, são alguns nomes que dão a dimensão atemporal deste processo. Infelizmente não fotografei o lançamento inicial deste quadro específico, mas talvez seja interessante, para compreender o processo, observar o primeiro passo de um outro retrato, de minha autoria, que segue o mesmo procedimento.

Continuando a desdobrar estes princípios envolvidos em uma paleta reduzida, a calça da personagem foi pintada com uma mistura de Terra-de-Siena (o mesmo do fundo) e branco, resultando em um tom totalmente neutro tonal e cromaticamente. Na blusa, um branco previamente aplicado, foi deixado secar para posteriormente se aplicarem veladuras de Terra-de-Siena, que modelam as dobras do tecido. Tal opção compositiva é bem didática de um recurso muito utilizado por Titian, que consiste em explorar as diferenças cromáticas resultantes do uso de determinadas cores aplicadas ou por transparências ou opacidades. O Terra-de-Siena misturado com branco na paleta, tem um caráter neutro, completamente distinto das vibrações quentes e sedutoras de quando aplicado por veladuras sobre um branco seco. Neste ultimo caso, o branco não interfere, esfriando, a cromaticidade do Terra-de-Siena. As mesmas veladuras de Terra-de-Siena foram, naturalmente, aplicadas também sobre o braço da personagem para criar seu modelado, sobre o rosto para fechar o modelado tonal, assim como serviram para desenhar o cabelo, que cai sobre o seio direito da personagem. (detalhe)

A personagem foi colocada sobre uma paisagem estudada a parte, em grande parte inventada para se harmonizar com as dinâmicas internas da figura, sentada sobre "lugar nenhum" (um toque moderno que não comprometeu a unidade clássica da obra).

A obra foi pintada sobre tela de linho, com tintas preparadas com óleo de linhaça e pigmentos terrosos (xadrez), amarelo ocre, terra queimada (vermelho terra), preto e branco titâneo-zinco. Por fim, um pequeno toque de amarelo cádmio misturado ao preto, para obter verdes um pouco mais intensos do que o terra-verde obtido pela mistura de ocre e preto.